Entrevista com a Tato – Parte II

Essa é a segunda parte da entrevista com as meninas da Tatoum movimento que procura resgatar o valor dos aspectos femininos, esquecidos ao longo do tempo. Veja a primeira parte da entrevista também.

Temos visto movimentos e tendências caminhando para a cultura do “genderless“, onde as diferenças sociais, visuais e de atitudes se fundem cada vez mais. Vemos ambos os sexos ocupando papéis igualmente relevantes no mercado de trabalho e na sociedade. As mulheres assumem características mais viris e agressivas, os homens se tornam mais afetivos e menos preocupados com o escudo do macho alfa . Por outro lado também vemos movimentos de resgate do “ser mulher“. Você pode falar um pouco sobre isso?

Fazemos uma distinção entre gênero e o que chamamos de aspectos femininos e masculinos. O gênero é uma construção de cada indivíduo, obviamente influenciado por questões culturais, sociais, familiares, pessoais e íntimas, que se reflete não apenas em sua sexualidade, mas na maneira como vive e se revela ao outro. Entendemos que a cultura do genderless pode ser bastante positiva se a mensagem, de fato, for: você pode ser como você quiser. Não é porque você é mulher, branca, heterossexual, por exemplo, que precisa estar dentro de um padrão pré-estabelecido de como se vestir, como se portar, que carreira escolher, que tipo de família construir etc. Ou não é porque você é homem, negro, homossexual, que deve seguir as expectativas que a sociedade tem em relação a você. Porque, na verdade, as expectativas estão se tornando mais fluidas e menos relacionadas ao sexo, à sexualidade, às classes sociais ou a qualquer fator externo, que deixa de ser tão determinante.

Ainda em relação à cultura do genderless, só é preciso ter cuidado para que isso não se transforme em uma tendência de igualar todas as pessoas, homens e mulheres, e esperar que se comportem sempre da mesma maneira, o que geraria, como em outros momentos da história, uma tendência à intolerância às diferenças. Os movimentos feministas mais recentes são bastante claros ao reivindicarem o respeito às diferenças entre homens e mulheres – e elas sempre vão existir – por meio de condições igualitárias, mas não necessariamente iguais.

Acreditamos que, a partir do momento em que cada indivíduo se permitir ser como é e também tiver permissão do coletivo para fazê-lo, vamos nos deparar com um contexto em que todos serão diferentes entre si – afinal, não existem dois seres iguais neste planeta – e precisaremos nos respeitar em nossa singularidade. Por outro lado, também iremos descobrir que cada um tem dentro de si elementos muito semelhantes que compõe a nossa experiência humana. Queremos acreditar que estamos, como humanidade, no início deste movimento.

Diante dessa nova consciência, qualquer classificação relacionada a sexo, gênero, sexualidade, modo de vestir, crença espiritual, profissão, núcleo familiar, qualquer tentativa de criar agrupamentos e definir como cada grupo deve se comportar será totalmente ineficaz, limitante e até mesmo ingênuo.

Homens e mulheres têm demonstrado características que há até pouco tempo não eram esperadas (como sensibilidade para eles e agressividade para elas, por exemplo), mas isso pode estar muito relacionado a essa permissão social e individual de se manifestar como quiser. Homens e mulheres têm sensibilidade. Homens e mulheres são agressivos em alguns momentos. Mas a nossa sociedade patriarcal preferiu separar o que era conveniente atribuir às mulheres e o que cabia aos homens, até mesmo por uma necessidade de controle e por uma tentativa de manter as mulheres submissas e silenciadas em casa. A partir do momento em que ambos ocupam posições e funções semelhantes na vida pública e doméstica, essa separação perde um pouco o sentido. E cada pessoa, independente do sexo, vai ter que aprender a lidar com todas as suas características humanas e a usar a mais adequada delas a cada situação.

O resgate do feminino que propomos não se contradiz a essa tendência. Percebemos que tanto as mulheres quanto os homens estão exauridos de terem que demonstrar sua força yang, masculina, competitiva, de ação constante, de controle, conquista, dominação, de fazer movimentos sempre para fora, na tentativa de atingir novas metas, novos recordes, de fazer barulho, de agir sempre a partir da mente, do racional e sustentar um sistema que está completamente desequilibrado. O nosso convite e o de muitos outros grupos que trabalham com o que chamam de resgate do Feminino Sagrado é para que mulheres e homens comecem a se reconectar com o coração, a intuição, o profundo, o interno, o silêncio, a reflexão, a cooperação, a sabedoria de que cada coisa tem seu ciclo, o cuidado, o coletivo, o não saber, o acolher.

Desse modo, poderemos atingir um novo estado em que mente e coração, feminino e masculino, agir e esperar, pensar em si e pensar no todo estejam em harmonia, para que possamos construir uma realidade mais feliz para os seres humanos. E para que nos sintamos mais completos, sem negar, inferiorizar ou excluir nenhuma parte de nós.

Mais uma vez, consideramos bastante limitante definir o que é “ser homem” ou “ser mulher”, porque acreditamos que o sexo com o qual nascemos – ou mesmo que escolhemos ter depois – é apenas parte da nossa experiência como seres humanos, ajuda a compô-la. Obviamente nos agrega informações, sensações, hormônios, formas, desafios, desejos, necessidades, contextos, mas não é determinante de nossa identidade. Dividir o mundo entre “ser homem” e “ser mulher” é enxergar por um espectro muito estreito.

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About The Author

Negócio de Mulher

Negócio de Mulher nasceu de um sonho: inspirar e ajudar outras mulheres empreendedoras. Quem escreve por aqui são as sócias: Karine Drumond e Priscila Valentino com colaboração de outras mulheres que compartilham dos mesmos propósitos.